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quinta-feira, 27 de novembro de 2014

VII FESTIVAL DE POESIA FALADA DO RIO DE JANEIRO

     O rio dos meus sentimentos continua desaguando na poesia. Quando algo me arrepia, quando a dor aperta, corro pra escrever. E aí, neste ano, em setembro, veio  a notícia de que 2 filhos meus (poemas) foram selecionados, dentre 20 de todo Brasil, para a final do VII  Festival de Poesia Falada do RJ, na Biblioteca Nacional/RJ. (Emoção grande vê-los na lista, já havia tentado em um outro ano. Emoção maior também porque homenageei meu pai  - que havia partido em julho - no pseudônimo: Augusto Luz de Maria). Mas a emoção não findou ali. O melhor estava por vir. Os dois poemas "Piscina de Alegria Corrente" e "Aldeia", fortemente defendidos pelos atores de Brasília Áurea Liz e Bruno Estrela, dirigidos por Gelly Saig, foram premiados. "Piscina.." ficou com o Primeiro Lugar e "Aldeia" com o Prêmio de Melhor Intérprete.
      O Festival é de iniciativa da APPERJ - Associaçao dos Poetas Profissionais do Rio de Janeiro.



 
Parte da turma de Brasília, que se banhou na "Piscina de Alegria Corrente", meu filho-poema que ganhou o 1o Lugar do Festival de Poesia Falada do RJ, concorrendo com 300 de todo Brasil.Depois do trabalho, a justa comemoração na Lapa foi de 20 h até as 6

terça-feira, 18 de março de 2014

MIL POEMAS PARA GONÇALVES DIAS


Em  agosto de 2013, na Universidade Federal do Maranhão, foi lançada a antologia MIL POEMAS PARA GONÇALVES DIAS, por ocasião do seu aniversário de 190 anos. Tive a honra de participar. Nela repousa um filho meu: “Gonçalves em Dias de Paz”. O evento, que contou com extensa programação abrangendo as cidades de São Luís – capital do Maranhão; Caxias (onde o poeta nasceu em 10/08/1823, no sítio Boa Vista, nas terras de Jatobá, a 14 léguas da Vila de Caxias); e Guimarães (onde veio a falecer no naufrágio do navio Ville de Boulogne, em 03/11/1864, próximo à região do Baixo de Atins, na Baía de Cumã), lançou 2  publicações, uma em versos e outra em prosa.A abertura oficial teve programação extensa, com apresentações artísticas de bandas e corais, recitais, debates, premiação do concurso do selo comemorativo ao evento, reunião de presidentes da Sociedade de Cultura Latina no Brasil, criação da Academia de Letras de São Luis e ainda a criação da Academia de Letras de Guimarães e do Instituto Histórico e Geográfico de Guimarães. A antologia tão bem produzida pela UFMA, reúne poemas de escritores nacionais e internacionais, e este meu, Poeminha (pág. 100), publicado aqui: http://issuu.com/leovaz/docs/mil_poemas1a_-_parte_1

* (As informações sobre o lançamento  foram  extraídas do blog http://karlinebatista.wordpress.com/ da amiga Karline Batista, também publicada na antologia)

 

Gonçalves em Dias de Paz

Por Eliane Silvestre

 

Os sabiás daqui continuam a cantar,

Há mais de cem anos

Sem Dias para apreciar.

 

As palmeiras, com mãos espalmadas,

São oração e poesia entrelaçadas.

A Deus, por Gonçalves, pedem

Que haja poemas seus, nas nuvens que seguem.

Sua poesia nunca foi exilada,

Desde sua morte, circula alardeada.

 

“- Poeta, pode seguir em paz

Que sua poesia não jaz!

Jamais! Jamais!”

terça-feira, 27 de março de 2012

PSSSSSSSSSSSSSSIU!

Por Eliane Silvestre


Adoro ouvir o silêncio.
Como bolha de sabão,
Estoura!
Em um momento,
Que vem com argumento:
Pré-nupcial,
Casamento,
Encontro não labial,
Sentimento,
Sepucral,
Mortevida,
Gene “is all”...

O silêncio é como uma morte.
Mortevida dos nossos achismos.
Neologismos.
Que venha o abismo!
Morte de ser um ser banal.

Adoro ouvir o silêncio.
Como gota, cai no mar
Da minha percepção.
Como palavra, emudece.
Como gota, umedece
Todo o meu sim
Que devia ser meu não.

Adoro ouvir o silêncio
E respirar seu escuro.
Perceber tudo que em mim
Está em cima do muro.

Adoro ouvir o silêncio.
Entrar em contato
Com um “sem noção”...
Enxergar minha encenação.
Entrega sem ação.
Dar a minha mão
Para minha alma
E depois voltar desta trip
Com mais calma,
Para saber mais sobre meu “ser”,
O que vou fazer,
Em que quero crer,
Se quero crer no novo
Ou se o velho está bom,
Ou se quero derrubar tudo
Em nova parede colocar meu cimento.
Se quero ter de volta
Meu  casamento
Ou se prefiro continuar a fazer amorpoesia
Com cada um de vocês,
Meus príncipes.
Permanecer brincando de “Era uma vez...”

quarta-feira, 21 de março de 2012

ALGA

por Eliane Silvestre


Alga marinha,
na mão minha.
Alga fora d´água
ficou sequinha.
Cedeu seu verde
para o meu olhar,
que de castanho-mel
verde-mar vai  ficar.
Mar-alga, mar-céu...
Onda que traz água....
Onda que traz alga...
Onda que minha boca salga...
Alga ou algo passará,
se eu não clicar.
Cliquei!
Deixei
nas mãos do tempo ,
que vem a pé
e  entrega ao vento...
Agora, alga não é
de um só momento,
nem de um só olhar...
É imagem a bumeranguear...
Infinitos olhares a apreciar
a onda alga que vai
mas sempre vai voltar.

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

JOGO DO SONHO

por Eliane Silvestre






Começo a jogada. Eu vou lhe mandar estrelinhas e você vai sonhar que está voando até perto delas. O jogo começa assim, com sonho que não tem limite.

Eu vou lhe dar um sanduiche delicioso e você, que revira o lixo à procura de comida, vai sonhar que terá o que comer todos os dias. Eu vou usar de todos os meios para lhe mandar sorrir e você vai sonhar que aquele sorriso lhe acompanhará pelo resto da vida e você o conseguirá sustentar ainda que sangrando por dentro, porque você ouviu dizer que é bom estar sempre sorridente, que rir faz bem pra saúde etc etc etc. Eu vou lhe colocar num emprego e você, que está desempregado há muito tempo e como homem sente-se frustrado, deprimido, sem imaginar perspectivas, vai sonhar que este emprego lhe possibilitará ter a família que você sempre desejou ter e não teve porque ficou órfão ainda criança. Eu vou lhe dar um livro com páginas em branco para que você escreva sonhando em editá-lo, sem custos e eu vou sonhar que você conseguiu edição /distribuição/venda, mesmo sendo o seu primeiro e ainda que você não seja celebridade de qualquer ramo. Eu vou me candidatar à carreira política e você vai sonhar que eu vou chegar lá e moralizar tudo, vou ser honesta, vou exterminar de vez com qualquer possibilidade de um indivíduo no planeta Terra (nos outros é sonhar demais) não ter a dignidade de uma moradia descente, emprego, infra-estrutura básica para viver enfim como um ser humano e não como bicho; o que tantas vezes vemos e esfregamos os olhos, torcendo que seja sonho. Eu vou anunciar para você que as atitudes de descriminação racial, sexual ou qualquer outra sumiram da face da Terra e você soltará foguetes urgentes, tão urgentes que você deixa o sonho um instantinho de lado, já que a notícia é boa demais e então percebe que o jogo virou e quem sonhou fui eu. Eu vou omitir, esconder, calar tantas verdades que não podem ser ditas na sociedade, vou participar dos conchavos, vou dissimular, vou puxar o tapete do outro porque poderá ter destaque maior do que o meu, vou aceitar que comprem meu silêncio, vou vender minha honra, vou mentir, explorar o outro, e você vai sonhar que um dia eu enxergue que se o motivo profundo de tudo isto for satisfazer o orgulho, o ego ou a ganância de nada serve, é tudo ilusão. Eu vou lhe chamar de amor e você vai acreditar que você é amado e também vai amar, minimizando os defeitos em mim que você enxerga, porque eu também minimizei os que enxergo em você.

O difícil neste jogo é que embaralharam demais as cartas. Já não sei o que é sonho e o que não é. Opto por escolher acreditar que vencerá tudo que significar que possamos ter um mundo melhor, a começar por nós mesmos, revendo nossas atitudes antes de qualquer outra coisa. Se cada um limpa sua partezinha do terreno retirando as ervas daninhas, daqui a pouco o terreno fica todo limpo.

Meus últimos dias tem caminhado muito no campo da sincronicidade (para quem não sabe, trata-se de conceito criado por Jung sobre as coincidências não serem meramente isto e sim algo maior ou seja terem um conteúdo significativo e não casual). Eu vinha pensando sobre a ausência de sonhos em mim, quando Elenilson me pediu para escrever sobre o tema, aproveitando o ensejo da passagem de ano que sempre chama nosso espírito a imaginar que estes próximos 365 dias poderão abrigar a realização de muitos deles.

Eu vinha dizendo que não tinha mais sonhos. Eu estava enganada. O sonho é o combustível da vida. Como acordamos todos os dias e levantamos da cama, se não temos sonhos? São eles que nos fazem dar a mão para o dia e sair realizando as tarefas cotidianas. Nem que sejam sonhos pequenos mas são eles que nos movimentam. Por exemplo, levanto da cama sonhando que naquele dia mandarei consertar o DVD que estou enrolando há tempos e vou concretizar o sonho de assistir aquele filme que queria tanto. Posso dizer sim que não tenho mais grandes sonhos, que me demandariam esforço,ações trabalhosas, riscos, mas não posso dizer que não tenha mais sonhos.

Paro aqui. Percebo que há pouco sonhei que poderia escrever algo sobre sonho, sendo que eu mesma não os encontrava mais dentro de mim e não é que escrevi! Agora me animei e vou encadear aqui um outro sonho: que você que me leu ainda sonhe muuuuuuito, tenha sonhos grandes, que te levem a saborear mais a vida e que lute por eles com fé, coragem, persistência, sem deixar que a visualização do objetivo a ser alcançado te cegue para a consciência de que é um passo de cada vez. Passos que precisam ser dados sempre. Quando o tempo estiver gritando no seu ouvido que você está sendo lerdo, anote os passos que já deu. Isto te ajudará a não se culpar porque ainda não chegou onde queria.

Para o ano novo, sonho que você terá mais de 2012 sonhos realizados. E aí fecho com um sonho maior, de uma psicóloga frustrada que existe em mim. Sonho ouvir um dia de você que me leu até aqui que ainda que do tamanho de um graozinho de areia esta leitura foi válida para a sua vida. Salve 2012! Salve você!

Salve o Literatura Clandestina, cada vez menos clandestino. TIM TIM! http://www.literaturaclandestina.blogspot.com/

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

CONVERSA COM A BOLHA DE SABÃO

por Eliane Silvestre

Hoje, tomando banho, uma bolha de sabão voou. Eu a segui com os olhos. Observei. Depois cedi minha mão. Ela pousou brilhantemente. Brilhantemente não só por seu brilho, mas porque estacionou com maestria na minha mão. Eu a fitei. Ela também olhou para mim. Parecia querer me dizer alguma coisa. Será alguma coisa relacionada com limpeza? Sou ficha limpa, Dona Bolha! Sou se considerar a carga legal da expressão referente às leis inventadas pelo homem, mas não posso dizer que sou ficha limpa na carga divina da expressão. Se fosse, aqui não estaria. Acredito que se estou aqui tenho muito a aprender para ser um  espírito ficha limpa. Segundo a segundo, pensando em  agir conforme nossa consciência, tentamos não sucumbir à tentação (nada a ver com sexo ou ditas imoralidades, aqui com sentido de ser tentado a sucumbir a todo sentimento negativo), tentamos  ser seres humanos melhores. Eu acredito que todos aqui desejam e buscam ser melhores (cada um sob a sua ótica) ou pelo menos que seus atos sejam condizentes com seus corações. Conforme a ignorância ou sapiência, o barco vai tomando um rumo ou outro no rio da vida. E nos achamos no direito de censurar aqueles que tomam rumos diferentes dos que acreditamos ser o caminho da verdade. Muitos não percebem que melhor do que rotulá-los de imbecis, julgando-se maiores que eles e esquivando-se do contato, o que em determinadas situações justifica-se pelo instinto de sobrevivência, podíamos silenciar a ofensa e pelo menos doar exemplo, conhecimento, ainda que não tenhamos interesse na aproximação, interação.

A bolha estourou. Acordei da viagem. Sorrio quando lembro que Cascão com certeza não teria tido esta oportunidade. Chamo minha criança à responsabilidade. Lembro da entrevista para o emprego. Tenho que sair correndo do banho. Desceu pelo ralo só a sujeira, as fantasias e reflexões deixei aqui.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012


ARDER DA TARDE NA PRAIA


Por Eliane Silvestre



Uma tarde malhada
de sóis e sombras.
Um corpo malhado,
molhado
de céu e ondas.
Um olhar parado,
deitado
na linha do horizonte,
quer andar na linha
e, buscando paz,
acha que o mar é a fonte. 

Um outro olhar infantil
também busca
do mar ouvir conselhos,
esquecer o pai vil,
e, nesta tarde d´ouro que ofusca,
deixa ali seu coração de joelhos. 

Num banquinho, um casal briga,
mas a natureza não liga
                            e continua esbanjando poesia:
                            o coqueiro fotografa a areia
                            e ela faz pose, quando ele grita: Sorria!... 

Todos vieram testemunhar
o encontro do céu com o mar...
Há quem acredite no cair da tarde...
Eu não,
com suas cores de fogo,
acho que não cai, arde
e faz chorar de verdade...


(publicado nos livros "Asas e Vôos", Editora Guemanisse/RJ, de 2006)



domingo, 25 de dezembro de 2011

BORBOLETINHA

por Eliane Silvestre

Ela tinha
borboletinha no pescoço
e um olhar de cantinho
dirigido ao  bonito moço.

Ele não viu.
A escada subiu.
Ela não desistiu.
Como borboletinha,
seguiu.

 Talvez seja comprometido,
pensou ligeiro ela.
Talvez se ache demais.
Não terá visto
seu olhar pequeno, mas atrevido,
a espiar de forma tão bela
a criação de seus pais? 

O moço parou.
“- Ai que medo ruim! “-
ela suspirou.
“- Percebeu ele, enfim, meu olhar “
- se pôs a sonhar.
“- Lá vem ele!
Caramba, socorro!
Se falar comigo, eu morro.” 

Ficou paralisada.
No rosto, rubor.
E o coração, em fórmula um,
batia a cada passada.
Faminto de amor ,
ansiava  o desjejum. 

Ele chegou de mansinho
e segurou seu pingente.
Falou que achou bonitinho
a borboleta na corrente.

Ela pensou, desconfiada: “- Será?”
Ele seguiu perguntando:
“- To passada!”
Aonde posso encontrar
para comprar
a borboleta que está usando?”
Agora dúvida não há.

Em tic tac ,seu pensamento foi buscar
quanto tempo demorou
aquele trajeto
que sugeriu nascimento de amor
e acabou em aborto.
Amor-morto
ainda em feto.

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

SUL-AMERICANA

 por Eliane Silvestre
                                                             

                                                           

 Para viver









                             

precisamos de um norte
ou de um sul.                        
Norteia-me
a visão de tudo.
Descanso, no céu azul.

No horizonte esférico,
perco meu olhar
de um ser américo...

América do Sul.
Amar a América.
Há mar na América!
E que mar!
Mar de raças,
miscigenação.
Em todos os ritmos,
mambo, reggae, tango
bate o sul-coração.

Orgulho de ser latina
Wim Wenders me trouxe
mais e mais ainda.
Olhando a América do Sul,
é  Buena a minha Vista!
Not  only red,white and blue!

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

PRATO

Por Eliane Silvestre

Era um prato.
Virou caco.
Que podia cortar.
Não cortou
a inspiração.
Imprudência, distração?
Há um poema no ar...
Inteiro cabia alimento.
Esfacelado, meu encantamento.
Prato azul caiu da mão
para outra utilidade ganhar:
mandala a encantar o olhar...
Azul –sedução.
Na imaginação, me vi  colar
linda arte circular.

(* a foto foi tirada no exato momento que o prato caiu e por incrível que pareça os cacos estavam assim numa outra forma circular)

domingo, 17 de julho de 2011

AXIAMANDO

Por Eliane Silvestre

A cada dia
estou mais  cilíndrica.
Ci –lín – dri - ca
Meu pensamento
está  menos quadrado.
Independente do valor de x ou de y,
na equação da vida, consigo ver
verdade em cada lado.
Estou vendo tudo do centro da esfera.
O universo não é mudo.
Conversa, mostra, vocifera.
Com a paz tracei paralela.
Mas também me quero triangular:
Santíssima Trindade,
Pai, Filho, Espírito-Santo,
pendular.
Sexo sem cálculo de valor,
retas vou angular.
No jogo de varetas
terei uma de cada cor.
Se precisar de muletas,
não hei de usar o amor.
Aonde minhas curvas vão dar?
Em ruas retas claras ou turvas.
Losanguezar-me-ei  circular
até deitar-me
e  enfim  
retangular...


sexta-feira, 1 de julho de 2011

COM NÉCTAR

por Eliane Silvestre

Enquanto não conecta,
Preparo a bebida, com néctar.
Terei mensagem de amor?
Terás comidinha, beija-flor!

A conexão está demorada.
Há alguma coisa errada.
Já o beijinha não esperou.
Conectou o bico e tomou.

E sigo o dia assim,
Espiando o que faz bem pra mim.
Um olho na tela,
Outro na janela.
Espio o mundo pela rede.
Espio do beija a sede.
De frente pro computador,
Sinto-me como um beija-flor,
De site-flor em site-flor,
Pesquisa com brisa.
Estudar entrega néctar ao sonhar.
Sugo nectars diversos,
Que melhoram o meu respirar
E transformo tudo em versos.
Verso-convite a quem me lê
Para alimentar-se do belo que vê.
Se há dor, passará!
Pássaros podem amenizar.
Entregue seu olhos ao vento,
Ainda que em dia corrido, num momento.
Deixe-se ver a valsa deles no ar.

segunda-feira, 27 de junho de 2011

TRÂNSITO LIVRE

por Eliane Silvestre

No engarrafamento,
enquanto   espero o carro voar,
voa  o meu pensamento. 

Meu  corpo está engarrafado,
mas   não aprisiona minh´alma
que  entra na escola ao lado. 
A janela da sala está aberta
e me deixa ver rostinhos conhecidos.
No passado, dou uma incerta:
quebra-queixo, maria-mole,
imagens, cheiros, gostos de tempos idos. 
Tempo em que observava as bolhas de sabão
e que mesmo sabendo que não durariam
 tentava caçá-las para vencer com a mão. 
Meus olhos  de criança
outras bolhas também buscavam.
Ainda trago na lembrança
as bolhas que as gotas da chuva formavam
Elas iam                                   e                                 vinham na poça,
de submarinos eu as chamava:
“- Vou viajar neles quando ficar moça!”
Até que algo me despertava.
Agora também é assim:
um ruído
e é o fim do passado pra mim.
É o sinal da escola que soa
e minha criança sabe bem o que quer dizer:
no coração infantil é a hora boa
da brincadeira ou lanche que vai fazer. 
Senti  todos  estes  gostos na alma,
tudo enquanto o trânsito estava parado.
Para mim mesma bato palma
e vejo que antídoto do stress
é ser sempre um ser alado.

quinta-feira, 23 de junho de 2011

BALANÇO

por Eliane Silvestre

O balanço levanta
o sorriso da criança.
O sorriso voa
e também a trança.
Um gritinho ecoa:
grito de alegria.



No chão, uma flor
a tudo assistia
e parecia
que também sorria.
Dançava com o vento.
Se rápido era o balanço,
parecia samba o seu movimento.
Se o impulso era lento,
cerravam os olhos da menina,
que parecia ganhar o céu.  

Enquanto, na flor pequenina,
um beija-flor, aproveitando a pausa,
sugava seu mel.

quinta-feira, 2 de junho de 2011

O BISCOITO ACABOU

por Eliane Silvestre

Saco vazio de biscoito,
no meio de um trânsito infernal,
alheio a tudo dança em oito,
numa coreografia genial...

Oito é o número do infinito...
Infinitos são os que atravessam
e não acham sequer bonito
que sacos vazios os impeçam,
porque estão cheios da esperteza.
Seus dias tropeçam na hipocrisia.
Seus olhos estão cegos para a poesia
e para ainda achar beleza
num gesto de falta de educação,
de alguém para quem a lata de lixo não existia
quando não sobrou mais biscoito na mão.
Sobrou pra mim olhar assim e perceber o belo...
Do lixo vomitar canção.
Toda imagem do cotidiano faz paralelos
e os opostos lindamente
selam seus elos.

segunda-feira, 9 de maio de 2011

NAS QUATROCENTOS, NUM TRONCO, UMA PEÇA DE MULHER

por Eliane Silvestre


De manhã,
caminhando pelas "quatrocentos" *,
é possível encontrar
quatrocentos motivos
para se sonhar...

Como hoje:
uma árvore vestia um sutiã.

Na madrugada,
ele despiu a namorada,
surpreendendo o sol pela manhã.
Mas o sol também não gostou.
Assim como o anônimo amante,
ele prefere ter sua namorada
pelada.
De sutiã, nem sequer fantasiou.

O sol ficou mesmo contrariado
e vai queimar aquele tecido
até ficar ressecado
e enfraquecido caia,
no chão ao lado,
para depois ser levado
por um lixeiro qualquer
e reciclado,
quem sabe,
novamente pouse
num corpo de mulher.

*algumas das superquadras de Brasília

quinta-feira, 7 de abril de 2011

janela para um poema sem fim

por Eliane Silvestre


...

...

...

por tras de paulistas janelas

por onde entra meu olhar candango

extasiado com a infinidade delas

está um joão ou uma maria

o joão que não para e faz de tudo

a maria mais romântica que anseia poesia

o joão que não fala, é quase mudo

a maria tão matraca que joão anseia ser surdo

o joão que é médico e sai com sono pro plantão

a maria que é doente e vai operar o coração

o joão operário da ópera que é tenor,

a maria bailarina que dançando opera poesia com amor

o joão que come a comida fria da marmita

a maria que para ficar bonita, come e vomita

o joão que trapaça em sua vida de senador e não tem sono

a maria pobre porém honesta que tudo devolve pro dono

o joão que só faz sexo por amor

a maria que quer é fazer não interessa com quem for

o joão que é nordestino

a maria que nega qualquer destino

ele veio do nordeste pra cá no caminhão do sonho

ela nasceu e morrerá aqui porque acha o mundo medonho...

...

...

...

o joão, a janela, a maria

a janela, joão e maria, poesia

a janela, a maria, o joão

minhas janelas da carochinha

rumo a um fim andam na contramão

do meu olhar-janela, eu,poeta, espio sozinha

joões e marias que entram na janela do tempo

e atiçam meus olhos a voarem com o vento

quarta-feira, 6 de abril de 2011

LEVE

por Eliane Silvestre



Tocar.
Estocar alegria.
Tocar, cantar.
Há canto no ar.
Em cada canto,
há mar,
há risos,
há lar.
Asa é minha casa.
Há travessia
sem rumo.
Escoltar a alegria,
meu prumo.
Não mais aceitar
ter mar
no olhar.
Estou leve,
mui leve...
me leve
vou, Ar
:)

sábado, 2 de abril de 2011

NO TREM, DE PASSAGEM

por Eliane Silvestre



Saiam pronomes possessivos!
Com vocês não quero amizade!
Minha busca é afastar-me dos abismos
do apego e da vaidade.
Meu, minha,
meus, minhas:
ilusões passageiras.
Enquanto o trem corre na linha,
não sei em que estação fico eu.
Não importa!
Nem quero pousar meu olhar na porta.
Dela poderá advir o breu,
Aos que entram, “gutiguti”, dou boas-vindas.
Aos que vão e amo,
o pranto engano.
Se vida tenho ainda, se não é finda,
obrigação tenho eu neste trem
de tornar minha viagem linda,
enquanto a parada final não vem.

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

CHOVE POESIA

por Eliane Silvestre


Crianças e bicicletas, na chuva.
Conversas infantis, no vento.
Riscando o asfalto, rodas molhadas.
Riscando a tarde, crianças regadas.
Cheirinho de mato encharcado.

Uma melodia procura a chuva,
Fugindo pela janela,
O céu carregado, torna-se refúgio para ela.

Nuvens pesadas
Sonham em ser crianças levadas –
Andam de carona na bicicleta do vento.
E eu penso, neste momento:
Com certeza, não é para criança que se destina
A previsão do tempo.

(publicado nos livros "Asas e Vôos", Editora Guemanisse, de 2006 e "Banco de Talentos da FEBRABAN", de 2003)

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

DEPRESSÃO? NÃO!

Por Eliane Silvestre



Estou com semi-depressão.

Digo semi porque entre uma lágrima e outra

Ainda há alegria em meu coração.


A alegria é um vestígio

De uma Eliane que fui.

Agora ela fica no esconderijo,

Mas ainda me intui.


Não é mais

Aquela alegria escancarada

É menos

Agora com uma tristeza disfarçada.


Não preciso e não devo

Incomodar ninguém.

Nem tão pouco almejo

Que ela vá embora também.


Acho que agora sou mais verdadeira.

Não nego que de vez em sempre

A tristeza é minha companheira.

É ela que me faz não correr

Não correndo,

Penso...

Reflito...

Caindo, levanto e recomeço a viver!

E aí tudo fica mais bonito!

ENTRE A VIDA E A MORTE

Por Eliane Silvestre

No final da rampa da garagem,

a plantinha, com flor, cresce formosa.

Rodas passam e seguem viagem...

E ela segue viva na morada perigosa.



Cresceu na brecha do cimento

e não hesitou um só momento.

Medo nem pensar

porque não pode ouvir ninguém falar.



Talvez, se pudesse, ali não estaria.

- Sua vida tá por um fio! - alguém diria.

E, não acreditando no seu poder,

não passaria da pequena folha.

Nossa força para florescer

precisa sair da bolha...



Da bolha do medo, da insegurança.

E aí podem dizer o que for,

pensar negativo, falar maldade...

E você segue como a planta-flor,

brincando com a adversidade

e sonhando como a criança...

 

 (publicado no livro "Poemas de Mil Compassos" com 50 outros escritores de todo Brasil)